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segunda-feira, 24 de março de 2025

SOBRE ALGUNS INCONVENIENTES DA DEPENDÊNCIA




A

DEPENDÊNCIA AFETIVA É UM VÍCIO



Depender da pessoa que se ama é uma maneira de se enterrar em vida, um ato de automutilação psicológica em que o amorpróprio, o auto-respeito e a nossa essência são oferecidos e presen teados irracionalmente. Quando a dependência está presente, entregar-se, mais do que um ato de carinho desinteressado e generoso, é uma forma de capitulação, uma rendição conduzida pelo medo com a finalidade de preservar as coisas boas que a relação oferece. Sob o disfarce de amor romântico, a pessoa depen dente afetiva começa a sofrer uma despersonalização lenta e implacável até se transformar num anexo da pessoa “amada”, um simples apên dice. Quando a dependência é mútua, o enredo é funesto e tragicômico: se um espirra, o outro assoa o nariz. Ou, numa descrição igualmente doentia: se um sente frio, o outro coloca o casaco.

“Minha existência não tem sentido sem ela”; “Vivo por ele e para ele”; “Ela é tudo para mim”; “Ele é a coisa mais importante da minha vida”; “Não sei o que faria sem ela”; “Se ele me faltasse, eu me mataria”; “Eu venero você”; “Preciso de você”; enfim, a lista desse tipo de expressões e “declarações de amor” é interminável e bastante conhecida. Em mais de uma oportunidade, as recitamos, as cantamos embaixo de uma janela, as escre vemos ou, simplesmente, elas brotam sem nenhum pudor de um coração  palpitante e desejoso de transmitir afeto. Pensamos que essas afirmações são demonstrações de amor, representações verdadeiras e confiáveis do mais puro e incondicional dos sentimentos.
De forma contraditória, a tradição tentou incutir em nós um paradigma distorcido e pessimista: o amor autêntico, irremediavelmente, deve estar infectado de dependência. Um absurdo total. Não importa como se queira argumentar, a obediência devida, a adesão e a subordinação que caracterizam o estilo dependente não são recomendáveis.
A epidemiologia do apego irracional é preocupante. Segundo os especialistas, metade das consultas psicológicas se deve a problemas ocasionados ou relacionados com a dependência patológica interpessoal. Em muitos casos, não importa o quão nociva for a relação, as pessoas são incapazes de colocar um fim nela. Em outros, a dificuldade reside numa incompetência total para resolver o abandono ou a perda afetiva. Ou seja: ou não se conformam com o rompimento ou permanecem, inexplicável e obstinadamente, numa relação que não tem pé nem cabeça.

Uma das minhas pacientes fazia a seguinte descrição da sua “relação amorosa”:

“Faz doze anos que namoro, mas estou começando a me cansar... O problema não é o tempo, mas o tratamento que recebo... Não, ele não me bate, mas me trata muito mal... Diz que sou feia, que tem nojo de mim, sobretudo dos meus dentes, que meu hálito cheira a... (choro), dói dizer isso: cheira a podre. Quando estamos num lugar público, faz com que eu caminhe na frente para que ninguém o veja comigo, porque ele sente vergonha. Quando lhe dou um agrado, se não gosta, grita que sou boba ou retardada, estraga o presente e o atira no lixo, morto de raiva... Sou sempre eu quem paga. Outro dia, levei um pedaço de torta para ele e, como ele o achou pequeno, atirou no chão e o esmagou com o pé... Eu comecei a chorar. Ele me ofendeu e me disse para sair da casa dele, que se eu não era capaz de comprar uma mísera torta não servia para mais nada. Mas o pior é quando estamos na cama. Ele se aborrece com meus carinhos ou abraços, isso sem falar dos beijos. Depois de se satisfazer sexualmente, se levanta em seguida e vai se lavar (choro)... Diz que periga eu contaminá-lo com alguma doença, que o pior que pode acontecer a ele é levar algum pedaço meu grudado no seu corpo... Ele me proíbe de sair e de ter amigas, mas tem muitas. Se eu faço alguma cobrança sobre o fato de ele sair com mulheres, me diz para terminarmos, que não vai agüentar uma namorada insuportável como eu”.

 
O que pode levar uma pessoa a suportar esse tipo de ofensas e a se submeter dessa forma? Quando perguntei a ela por que não o deixava, respondeu entre envergonhada e esperançosa: “É que eu o amo... Mas sei que o senhor vai me ajudar a deixar de amá-lo, não é verdade?” Ela buscava o caminho mais fácil: o alívio, mas não a cura. As reestruturações afetivas e as revoluções interiores, quando são verdadeiras, são dolorosas. Não há poção para acabar com a dependência afetiva. Respondi não acreditar que uma pessoa devesse se desapaixonar para terminar uma relação e que duvidava ser possível produzir desamor por força de vontade e de razão (se fosse assim, o processo inverso também deveria ser possível, mas, tal como atestam os fatos, não nos apaixonamos por quem queremos, mas por quem podemos). Para ser mais exato, disse que o caso dela precisava de um enfoque similar aos usados nos problemas de farmacodependência, no qual o viciado deve deixar a droga, independentemente de sua vontade. “O que a terapia tenta incentivar nas pessoas viciadas é basicamente o auto con trole para que, ainda necessitando da droga, sejam capazes de brigar contra a urgência e a vontade. No balanço custo-benefício, aprendem a sacrificar o prazer imediato pela gratificação a médio e a longo prazo. O mesmo ocorre com outros tipos de vícios como, por exemplo, a comida e o sexo.
Você não pode esperar desapaixonar-se para deixá-lo. Primeiro deve aprender a superar os medos que se escondem por trás do apego irracional, melhorar a auto-eficácia, levantar a auto-estima e o auto-respeito, desenvolver estratégias para a resolução de problemas e para ter maior autocontrole. E tudo isso você deverá fazer sem deixar de sentir o que sente por ele. Por isso é tão difícil. Repito, o viciado deve deixar de consumir, mesmo que seu organismo não queira fazê-lo. Deve lutar contra o impulso porque sabe que não lhe convém.
Mas enquanto luta e persevera, o apetite está ali, quieto e pungente, flutuando em seu ser e disposto a atacar. Não se pode chegar agora ao desamor, isso chegará depois. Além disso, quando começar a ficar independente, descobrirá que aquele sentimento não era amor, mas uma forma de vício psicológico. Não há outro caminho, deve se libertar dele sentindo que o ama, mas que ele não lhe convém. Uma boa relação precisa bem mais do que afeto em estado puro.”
O “sentimento de amor” é a variável mais importante da equação interpessoal amorosa, mas não é a única. Uma boa relação de casal também deve se fundamentar no respeito, na comunicação sincera, no desejo, nos gostos, na religião, na ideologia, no humor, na sensibilidade e em mais cem adminículos de sobrevivência afetiva. Minha paciente era uma viciada na relação ou, se preferir, uma viciada afetiva.















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