Assisti
à entrevista com um dos autores do livro “A Tristeza Perdida - Como a
Psiquiatria Transformou a Depressão em Moda” e, em virtude da relevância dos
aspectos levantados por ele, acerca da tristeza, resolvi “conversar” a respeito.
Na nossa sociedade é incomum falar de tristeza, costumamos desconsiderar (ou tentar desconsiderar) os sentimentos incômodos como se, desta forma, estivéssemos protegidos deles. Não queremos falar de tristeza, ou admitir a tristeza, e costumamos negá-la. Além disso, é comum que os outros não queiram saber da nossa tristeza: “Está triste? Como assim? Por quê? Deixa disso! Não tens do que reclamar...”, e por aí a fora! De modo que combatemos a tristeza como se ela fosse algo insuportável e totalmente dispensável.
No entanto, o que os autores querem chamar atenção é que temos sido induzidos a confundir a tristeza normal e o transtorno depressivo.
Sim!!! Ficar triste é normal!
Somos seres de sentimentos, e sentimentos diversos: temos sentimentos bons, mas também temos sentimentos “ruins”, que fazem parte de nós e que traduzem como nos sentimos diante dos acontecimentos da nossa vida. É através dos nossos sentimentos, inclusive da nossa tristeza, que chegamos ao entendimento a respeito daquilo que somos.
Em saúde mental, o limiar entre o normal e o patológico, é a intensidade. A tristeza dita normal é um sentimento comum e necessário para nos levar à reflexão diante de situações da vida que nos causam desapontamento, sofrimento, decepção. Vocês podem pensar em alguns exemplos: é possível passar por uma experiência de separação sem tristeza, seja pelo falecimento de um ente querido, seja pelo rompimento de um relacionamento? E pela perda do emprego? Ou por ser prejudicado por uma situação de calamidade (como temos visto nas últimas chuvas, por exemplo)? A tristeza normal nos obriga a passar por um momento introspectivo, de reserva, de investimento na nossa subjetividade. Precisamos pensar sobre nós mesmos, investir a nossa energia no nosso “eu” para podermos atribuir um significado a esta tristeza e seguirmos adiante. Para conseguir reconstruir é necessário, antes, elaborar o que fez “destruir”, o que fez perder. As perdas implicam tristeza!

Já a tristeza patológica, a que acontece na depressão, é algo que extrapola qualquer possibilidade de entendimento e de investimento, não há forças sequer para entender, quem dirá para reconstruir. Quando nos sentimos tão tristes a ponto de não encontrarmos energia alguma em nós, que justifique rever nossos sentimentos e as nossas atitudes e projetos podemos estar diante da tristeza patológica e aí é preciso buscar ajuda fora de nós, com especialistas (psicólogos e psiquiatras). A frase comum das pessoas que sofrem de depressão e resistem a ela, ou que é dita a estes pacientes é: “Vou me ajudar/Você precisa se ajudar”. Mas saibam que, nestes casos, não há desejo que dê conta sozinho. Você vai precisar de alguém que consiga lhe fazer investir novamente em si mesmo, seja com o uso de medicamentos, psicoterapia ou ambos.
De fato, o que devemos pensar quando a tristeza bater à nossa porta é: o que está acontecendo na minha vida? Há um fator relevante para isso? Costumo me sentir assim? Com que freqüência? Caso haja dúvidas a respeito da intensidade, pode ser importante procurar auxílio profissional. Entretanto, se você perceber que a tristeza apareceu porque houve algo disfuncional e sofrido na sua vida, talvez consiga dialogar com ela e transformá-la num aprendizado a respeito daquilo que lhe faz bem e daquilo que não lhe faz. Os maus sentimentos não precisam ser negados e nem sempre precisam ser anestesiados pelos psicofármacos, devemos deixá-los manifestarem-se na nossa vida, pois tanto quanto os bons sentimentos, eles também encerram energia para a transformação!


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