“Toda vez que o meu telefone tocava e eu via o nome dele no visor... Eu sentia calafrios e aquele frio na barriga. Ficava feliz. Porém eu sabia que não devia atender, mas atendia. Eu sabia que não devia encontrar com ele, mas encontrava. Ficava feliz naquele dia e o resto da semana arrasada porque ele não me procurava mais.”
Essa é a história de Ana Luiza*, igual a de muitas mulheres que vivem relacionamentos que não lhes fazem bem algum, mas ainda assim, não conseguem se desvencilhar dele, caracterizando um comportamento de dependência extrema, onde o outro passa a ser mais importante do que a si mesma. Tal como uma droga, pois sem ele, a pessoa se sente muito mal como se estivesse em abstinência. Um comportamento conhecido como dependência afetiva.
Insegurança, dificuldade de assumir seus desejos e vontades, ciúmes excessivos, falta de controle emocional e baixa autoestima caracterizam o dependente afetivo. Tal comportamento acontece quando há uma precariedade na formação da personalidade da pessoa, tornando o outro ou o relacionamento absolutamente necessário, o único caminho para a felicidade. Naturalmente os seres humanos são dependentes uns dos outros, uma vez que o indivíduo não vive de maneira saudável isoladamente. No entanto, isso só se torna uma patologia quando o impede de ser “sujeito de sua própria vida”, tornando-o objeto de subserviência para o outro. Ou seja, quando os próprios desejos e vontades são deixados de lado, e a vontade do outro assume o espaço, muitas vezes até tomando decisões como o que comer, o que vestir, onde ir.
“Tinha vezes que o Ricardo* me pedia para não encontrar ele muito arrumada, porque ele não estava assim. Então eu me arrumava de qualquer jeito o importante era eu encontrar com ele. Mas ao chegar lá, eu achava que ele olhava para todas as mulheres admirando-as e elas a ele”, relembra Ana Luiza*.
Outro comportamento comum do dependente de alguém, que geralmente, vê o seu objeto de amor como alguém que todo mundo quer.
Normalmente, a origem da deficiência na formação da personalidade ou individualidade de uma pessoa está nas suas relações familiares. Se uma pessoa passou a infância preenchendo “os vazios” dos pais, para que sobrevivessem a algum caos emocional, e se esse filho não tinha outra rede de apoio (tios e avós, por exemplo), é bem provável que essa criança se torne um adulto extremamente dependente de algo ou alguém. “Devido ao contexto de sobrevivência da família, e sua própria, a criança se vê obrigada a deixar seu lugar de filho e passa a fazer o papel de supridor das faltas desses pais/família. Deixando de fazer as construções emocionais necessárias para seu crescimento e amadurecimento.” É o que explica a psicóloga Lucrecia Nizzo, supervisora do Instituto Moises Groisman de Terapia familiar no Rio de Janeiro
A dependência afetiva não é uma patologia exclusiva às mulheres. No entanto, a tendência dos homens é apresentá-la de outras formas. “Todo dependente químico é um dependente de “alguém”, mas como ele precisou sair de perto dessas pessoas para exercer atividades relativas a sua idade, ou mesmo porque foi obrigado, ele “alimenta” essa falta, com outro objeto, que pode ser maconha, cocaína, objetos, sexo, medicamentos ou mesmo outra pessoa.” Esclarece Lucrecia.
Para que famílias não formem novos dependentes é preciso que os pais tenham noção dos próprios sentimentos. Pois o filho só vai apresentar dependências se sua família também as apresentar.
Portanto, fingir ou ignorar um problema ou uma necessidade são a melhor saída.
No caminho para a cura é preciso que o dependente entenda que sozinho, dificilmente a encontrará.
Pode até se libertar de um relacionamento doentio em que viva, mas provavelmente entrará em outro ou substituirá por outra coisa. “É preciso encontrar o buraco negro, ou caixa preta da família. Assim, juntos, terapeuta e família criam um espaço de independência tanto para o dependente, quanto para o co-dependente.”

Nenhum comentário:
Postar um comentário