É muito difícil, devido as nossas
limitações humanas, começarmos a praticar o desapego, por que muitas vezes não
conseguimos detectar se somos realmente apegados a algo ou alguém.
Um dos tipos de apego mais fácil de
detectar é o apego à matéria, por que fica bem mais visível quando a pessoa tem
dificuldade em dividir bens materiais e também em se desfazer daquilo que não é
mais necessário. Este apego tem origem no instinto primário de sobrevivência e
dependência do meio no qual a pessoa vive e foi criado. Neste tipo de apego
específico as pessoas acreditam que só será feliz se possuírem isso ou aquilo,
e muitas vezes acabam comprando coisas que nem sempre serão úteis ou
necessárias. Elas nem se questionam se precisam mesmo comprar, querendo apenas possuir.
Existe também o apego às emoções e
sentimentos, e nele existem dois tipos derivantes de apego, ambos ligados aos
sentidos físicos, aos desejos de prazer e de felicidade ilusória, são eles: o
apego ligado aos vícios e o apego ligado às pessoas.
O apego às pessoas muitas vezes é
confundido com AMOR, por que é natural que,
quando amamos, termos a necessidade de estarmos com a pessoa, mas o que acaba
acontecendo é que, por fazer esta confusão com AMOR, começamos a querer que
esta pessoa sempre esteja ao nosso lado e as vezes até sob o nosso controle e
posse. Nesse caso, o apego se confunde com AMOR!
Precisamos o quanto antes entender que
ninguém é de ninguém, que cada um é dono do seu próprio nariz e tem o direito
de fazer suas próprias escolhas, viver a sua própria vida, fazer suas
descobertas e conquistas, ter suas próprias vitórias ou até mesmo derrotas,
usando o nosso livre arbítrio. Não tem como termos tudo ao nosso controle.
Por traz deste apego pode se esconder o
medo da solidão, medo de estarmos sozinhos com nós mesmos, de sermos obrigados
a enxergar os nossos “cantos escuros” e assim descobrirmos aquilo o que
realmente nos aflige... são as nossas limitações e defeitos.
O apego aos vícios vem da insatisfação
consigo mesmo e com o mundo, da baixa autoestima, da crença ilusória na sua
incapacidade de realizar algo ou conquistar o seu lugar no mundo, resultando
assim em uma dependência de algo que nos traga certo alivio imediato ou uma
satisfação superficial, mas que logo depois acaba, nos colocando num circulo
vicioso, nos tornando mais e mais dependentes. Na verdade o vício funciona aí como
uma fuga de si mesmo.
Temos também o apego ao EGO, que é o
apego as idéias, conceitos e crenças, este tipo de apego ao nosso ver, é o mais
difícil de ser detectado e entendido, pois ao longo do tempo formamos o EGO, ou
seja, o nosso EU ou personalidade, de acordo com o meio em que vivemos (pais,
irmãos, amigos, etc.)... se ao formarmos o Ego (eu) não desenvolvermos o nosso
poder de discernimento das coisas nos moldando apenas a partir do “outro”,
acabamos perdendo a nossa identidade individual, e criando máscaras e
personagens, para conquistarmos o nosso espaço neste grande palco da vida.
Mas no fundo estes personagens que
criamos nem sempre expressam a verdade sobre nós, na verdade são apenas caricaturas,
máscaras grotescas que escondem o nosso verdadeiro rosto, a nossa verdadeira
alma. Na verdade, falta-nos coragem para nos desapegar daquilo em que
acreditamos (ou fingimos acreditar) ser o nosso verdadeiro EU, pois temos medo
de encarar as nossas falhas, os nossos limites... ou seja, as nossa fraquezas.
Bom até ai tudo bem, já sabemos os tipos
de apegos existentes, ou pelo menos uma parte deles, mas... o que fazer com
isso?
Temos que exercitar o DESAPEGO!
Desapego é um exercício difícil para nós
ainda presos ao ego humano. O apego é uma das maiores ilusões do ser humana,
pois se levarmos em conta que esta vida é passageira, que ficaremos neste mundo
menos de 100 anos, o apego acaba se
tornando uma fonte de grande sofrimento, e se analisarmos profundamente
chegaremos a conclusão que ele só nos causa dor e muitas lágrimas por nada, o
apego é o mesmo que querermos segurar o vento , o ar, jamais conseguiremos, por
que nós não temos, nós simplesmente SOMOS. Somos o que somos.
O sofrimento do apego se inicia quando
estamos presos as ilusões, pois termos posse sobre as coisas materiais; a nossa
terra, a nossa casa, as nossas roupas, a nossa beleza, o nosso carro, o nosso
cargo, a nossa posição social, o nosso talão 5 estrelas, o nosso cartão de crédito
internacional, etc.
Claro que a prosperidade é um direito do
ser humano, mas não podemos confundir somente com posse, e se pararmos para
pensar nós aprendemos tanto na Luz como
na sombra, pois em alguns casos temos que perder para darmos valor ao ganhar,
temos que passar pela escassez para darmos valor e a buscar a abundância, pois
a vida é uma grande roda, que gira e gira... e nessas voltas vamos adquirindo
experiência e sabedoria, e se continuarmos apegados a coisas e pessoas
perderemos esta grande oportunidade de aprendizado.
E o que podemos dizer sobre o apego
afetivo? Esse é em muitos dos casos o mais dolorido! Criamos inúmeras vezes na
nossa mente a ilusão de que o outro nos pertence, que nós temos posse sobre o
outro e também vendemos a ilusão que o outro tem posse sobre nós, e o mais
irônico, para não dizer triste, é que nos atrevemos, presos a esta visão distorcida,
a chamar isso de AMOR! Nós confundimos apego profundo com desapego e não
conseguimos enxergar esta confusão. Vamos dar um exemplo para servir de
reflexão:
“Maria e João foram casados por quase 20
anos. O João se apaixonou pela Joana e foi embora em busca da sua felicidade,
real ou ilusória, não tem importância aqui, Isto já faz 10 anos. João foi
embora mas continuou iludindo a Maria. Não permitia que ela se desprendesse
dele. Visitava-a constantemente, a presenteava sempre, escrevia cartas, etc.
Afirmava que não a conseguia esquecê-la, mas que não tinha forças para deixar a
Joana, pois esta era muito frágil e por isso necessitava dele, mas ela, Maria,
era forte e que a admirava... por isso é que, por ser forte, ela tinha
condições de compreender e esperar que ele resolvesse a situação.
E Maria nisso tudo? Ela num verdadeiro
exemplo de desapego, negou a própria vida, parou de lutar por suas metas,
escondeu-se atrás destas migalhas ilusórias e ficou aguardando esperançosa o
retorno do João, ficou adiando ser feliz por todos esses 10
anos!”
Isso é desapego? Amor incondicional?
Podemos até admitir que isso seja amor,
e como amor incondicional é desapego, é querer a felicidade e o bem estar do
outro e de si mesmo. Mas para amarmos o outro não podemos esquecer que temos primeiro que nos amar e nos respeitar.
Na verdade o que podemos identificar neste exemplo é que, camuflado como
desapego, está um apego tão forte, tão enraizado, que não permitimos que o
outro se desapegue de nós !
Precisamos entender que desapego nos
liberta... e o apego nos aprisiona.
Exercitemos o desapego das coisas
materiais, das ilusões emocionais, dos rancores, das mágoas de tudo aquilo que nos
possa aprisionar.



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